E mais um ano se passou…

Dia 25 de Setembro faz dois anos que eu me mudei pra Inglaterra.

Ano passado eu fiz um post parecido quando completou um ano.

Confesso que muitas coisas continuam como eram há um ano atrás, mas algumas coisas mudaram.
Eu tinha acabado de começar no meu emprego, e hoje eu sou uma das funcionárias mais importantes da empresa, tenho mais amigos, mais histórias pra contar, chorei, e muito, a perda do meu cachorro e sorri com o meu apartamento novo, novos planos, novas possibilidades.

Nesse ano que passou eu pratiquei muito a minha fotografia e estou muito satisfeita com o rumo que minha arte está tomando.

Cada dia que passa eu vejo que a Cecilia que veio pra Bournemouth no dia 25 de Setembro de 2012 não existe mais. Nesse ano que passou, muitos dos meus “amigos” de Brasil com S sumiram. Alguns já tinham começado a sumir antes mesmo de eu vir pra cá, mas agora, depois de quase 3 anos longe do RJ e 2 anos longe do Brasil, eu literalmente conto nos dedos de uma mão as pessoas com quem eu falo constantemente e principalmente, as pessoas que tem qualquer similaridade comigo. Meu numero de amigos no FB caiu consideravelmente.

Vir pra cá mudou a minha vida de todas as maneiras que uma vida pode ser mudada. Eu me descobri enquanto ser humano, enquanto mulher, enquanto adulta, enquanto pessoa independente. Eu descobri que estar sozinho é ok quando a própria companhia é agradável. Eu aprendi que a “falta de toque” do povo britânico faz com que o toque tenha MUITO mais valor.
Aprendi com a falta de sol que o verão é bom demais, e que o outono é a estação mais linda.

Com dois anos de Inglaterra, eu aprendi que o espaço pessoal de cada um tem que ser respeitado, que eles avisam sim antes de visitar os outros, não por esquisitice, mas por respeito pelo outro, por saber que o outro pode estar ocupado ou pode simplesmente não estar a fim de receber ninguém.

Com dois anos de Inglaterra, meu português tá uma bosta. Eu penso pra falar, eu esqueço palavras, eu falo devagar. E não é bestice não, é pura falta de habito.

Com dois anos de Inglaterra eu achava que eu teria viajado por meia Europa, mas o mais longe que fui, foi o sul de Gales.
Eu aprendi que sim, a gente ganha salário em Libra Esterlina mas gasta o salário em Libra Esterlina também.

Depois de dois anos vivendo numa cidade pequena, dá saudade do ar cosmopolita de uma metrópole, mas depois de 2 horas em Londres eu já não aguento mais e quero voltar pra minha cidadezinha.

Depois de dois anos, eu aprendi que o lugar que a gente nasce e às vezes passa a maior parte da nossa vida, não necessariamente é o lugar certo pra gente.

 

Depois de dois anos, eu tenho certeza que eu achei o lugar certo pra mim.

Amor, meu grande amor…

Desde ontem eu tenho me perguntando qual é o limite do amor.

Questão difícil essa. Como é medido? O que é amor demais e o que é amor de menos? Existe algum limite traçado, escrito?

Como é que faz quando você se dá conta de que ama tanto, mas tanto, que o amado(a) passa a ser parte de você, e só de pensar em viver sem já dá aquele nó na boca do estômago.

E o que se faz quando se percebe que nem todo amor do mundo é suficiente? Que não importa o esforço e a dedicação, o que você tem pra oferecer não é o bastante?

E pior que isso, de onde vem a coragem pra se dar conta disso e assumir isso como verdade?

Não sei.

Segundo Olaf, “Love is… putting someone else’s needs before yours.”, e eu acho que é bem por aí.

Dói, e muito, mas amar é isso aí mesmo. Querer que o amado(a) seja feliz, mesmo que isso signifique estar longe de você.

Em tempo: Ontem depois de muito pensar e repensar e ponderar, infelizmente decidimos que, depois de dois anos de muito amor e dedicação, não poderemos ficar com o nosso cachorrinho, o Rio.  Ele é um cachorro que precisa de cuidados que eu e Lea não temos condições de dar e chega uma hora que a gente tem que colocar a felicidade do bichinho na frente da nossa. O Rio precisa de um campo bem grande pra correr, ele precisa de companhia humana constante e atenção tempo integral. No fundo a gente já sabia disso, mas é duro assumir pra si mesmo que você vai ter que abrir mão de algo que ama tanto, porque sabe que essa é a única maneira de fazer ele feliz de verdade. Meu coração está partido em mil pedacinhos, mas eu sei que ele vai ser mais feliz assim. Agora só me resta aproveitar bastante os momentos que eu ainda tenho com ele, e lembrar dele como uma página de muita felicidade no livro da minha vida, mas com a consciência tranquila, sabendo que eu fiz tudo que eu pude por ele, e que ele vai ser mais feliz em outro lugar.

😦

Eu não sento que nem homem. Eu sento que nem gente.

Gente, que ano é hoje? Cada dia que passa, eu acordo de manhã pensando que voltamos no tempo, que estamos de volta aos anos, sei lá, anos 20 ou mesmo de volta aos tempos medievais. Eu vejo na TV e nos jornais e na internet notícias que corroboram com a minha impressão. Veja bem, eu me considero uma pessoa de sorte porque fui criada num seio familiar extremamente esclarecido e, digamos, moderno. Moderno porque desde muito nova eu só tive bons exemplos de convivência humana. O que eu quero dizer com isso? Simples. Na minha casa, as empregadas domésticas (todas negras ou pardas) raramente chamavam meus pais de “Dona Roseanna” ou “Seu Créso”. Era sempre pelo 1o nome. Além disso, elas eram sempre convidadas para sentar à mesa conosco durante as refeições. Esse é apenas um exemplo. Desde pequena eu soube que meu tio era gay. E isso nunca foi um big deal. Eu acredito que, com isso, meu comportamento foi moldado com tolerância e igualdade.

Eu entendo que, num país como o Brasil, onde a grande maioria da população de baixa renda é negra, as pessoas colocaram no corpo uma armadura de preconceito generalizando que, todo negro é bandido. Eu jamais coloquei essa armadura. Talvez por isso eu tenha sido assaltada tantas vezes mais do que meus amigos. Porque eu não automaticamente assumia que aquele cara negro e mal vestido andando perto de mim tinha a intenção de me assaltar. Mas aí é que a coisa muda de figura pois, se me lembro bem, MUITAS das vezes que fui assaltada, os meliantes eram branquinhos. Uma vez foi uma cara louro de olho claro, que roubou meu mp3 player. E agora? Seria isso a desconstrução do preconceito?

Mas veja bem, meu ponto principal nem é esse. É claro que o preconceito em geral é nojento, seja por cor da pele (que eu me recuso a chamar de raça por que, gente, por favor, nossa raça é a humana e quem pensa diferente pode ir brincar no parquinho com Adolf), credo, opção sexual (outra expressão que me incomoda bastante porque, né, não é bem opcional, mas oh well), identidade de gênero (hello, 2014 gente, gênero binário está no passado) e gênero biológico.

Porém, eu acredito que role uma catarse na vida de algumas pessoas em determinado momento que faz com que seus olhos se abram. Infelizmente essa catarse ainda é um privilégio de poucos. Especialmente no que diz respeito ao machismo, sexismo e misoginia. E é alarmante como essa cultura do machismo está araigada no nosso dia a dia. Mesmo nas coisas mais simples, mais sem importancia. Por exemplo, dia desses numa loja aqui perto de casa eu vi um protetor de ouvidos em promoção. Era azul e dizia na embalagem: “Protetor de ouvidos masculino.”. Ao lado desse produto, tinha um IGUALZINHO. A mesmíssima coisa, mas era rosa. E na embalagem, dizia: “Protetor de ouvidos feminino.” Eu vi aquilo e pensei: “Mas gente, é a mesma coisa!”.

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Outro exemplo: O irmão da Lea recentemente descobriu que vai ser papai. Estavamos conversando sobre a feliz notícia e perguntamos se eles vão querer saber o gênero biológico do bebê antes do nascimento e a mãe da criança, prontamente, disse: “Mas é claro! Precisamos saber pra poder escolher a cor do quarto.”. Oi?

Eu sei que, na sociedade que vivemos hoje em dia, isso tudo é muito normal mas, gente, não é normal não! Um menino pode vestir rosa SIM e ele não vai ser menos menino por isso. Bem como uma menina pode vestir azul e ser mega feminina. Os brinquedos com os quais eles brincam não vão moldar a personalidade deles. Eu já vi pais dizendo que quarto de menino tem que ser azul porque rosa é cor de menina. E na mesma conversa, eles dizem que video-games não influenciam uma criança no que diz respeito a violência como muita gente pensa. Ora, você não está sendo coerente, amiguinho! Se um video-game ultra violento não vai fazer com que o seu filho(a) seja uma pessoa violenta, por que diabos a cor preferida dele(a) vai fazer com que ele(a) seja mais ou menos feminino(a) ou masculino(a)? A lógica é a mesma, gente!

Outro dia eu vi no Facebook um post sobre “arroz de churrasqueira”, que até se tornou meio viral porque era uma ideia muito imbecil de cozinhar arroz dentro de uma garrafa pet. Mas o que chamou minha atenção foram os comentários de muitos amigos meus dizendo como “isso só podia ser ideia de mulher mesmo”.

Eu mesma sofri muito na minha infância e adolescência com brados vindos dos meus amiguinhos e até mesmo de pessoas menos esclarecidas da família dizendo: “Você precisa colocar um vestidinho!” ou “Você cruza as pernas que nem homem!” e coisas desse tipo.

A sociedade brasileira ainda é extremamente sexista, machista e misógina. A masculinidade construída socialmente sente-se ameaçada diariamente pelas pequenas vitórias das mulheres. Pequenas porque sabe-se bem que ainda há muita estrada pela frente.

Por isso que eu sempre digo que a sociedade precisa de mais feministas. Porque em pleno 2014 menos da metade dos casos de violência doméstica são denunciados para a polícia. Porque as mulheres ainda ganham consideravelmente menos que os homens mesmo estando exercendo a mesma função. Porque mulheres que se relacionam com muitas pessoas ainda são chamadas de “piranhas” ou “safadas” ou “fáceis” mas homens que saem com muitas pessoas são pegadores, garnahões. Porque músicas como “Blurred Lines” ainda ficam no topo  das paradas musicais. Porque mulheres que não querem casar ou ter filhos ainda são consideradas fracassadas ou “ficaram pra titia”. Porque a ideia de que as mulheres precisam ficar em casa pra cuidar da casa e dos filhos ainda é predominante. Porque homens que cuidam do próprio corpo ou da própria casa ainda são chamados de viadinhos. Porque homens que decidem ser bailarinos ou cabeleireiros ou estilistas ainda são motivo de chacota.

A sociedade precisa de mais feminismo porque a maioria das pessoas ainda não entendeu que lugar de mulher não é no tanque, mas onde ela quiser estar. E lugar de homem não é na estiva, é onde ele quiser estar.

Eu espero que um dia o mundo perceba que a água potável está acabando, a poluição está destruindo a natureza e a atmosfera, e pare de se preocupar com a cor que uma pessoa escolhe como sua preferida ou o brinquedo que uma criança escolhe para brincar. Um mundo com menos “coisa de mulher” ou “coisa de homem” e mais “coisa de gente”.

Mas é aquilo, em terra de machistas, mulher que tem opinião é fancha.

Resenha – Frozen

Hoje eu assisti ao novo clássico Disney, Frozen.

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O filme foi dirigido por Chris Buck e Jennifer Lee, que estão na Disney há um tempão e fizeram parte de sucessos como Tarzan e Wreck It Ralph.

Eu decidi escrever sobre o filme mesmo estando tão omissa com relação ao blog porque, pela primeira vez em muito tempo, um filme tocou meu coraçãozinho como este o fez.

Se fosse pra resumir o filme em uma palavra, eu diria que é LINDO. Honestamente, eu acho que se fossem feitos os cenários em 3D e os personagens em 2D seria MUITO melhor pois, pra mim, a tecnologia 3D ainda não está avançada o suficiente para exprimir emoções humanas com a precisão necessária para tocar lá no fundinho, sabe? Por isso eu ainda prefiro sim animações 2D.

Um exemplo simples pra mim é a comparação entre essas duas imagens do filme Tangled:

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Na minha opinião, você consegue ver a diferença tão claramente. A arte 2D tem MUITO MUITO MUITO mais expressão, tem mais CORAÇĀO.

Enfim, isso tudo nem vem ao caso. Deixa eu continuar falando de Frozen!

Gente, que coisa linda! Frozen trouxe de volta toda a magia Disney que estava perdida em algum buraco escuro do mundo. Alguns dos cartazes diziam “A melhor produção Disney desde O Rei Leão” e, de fato, era verdade!
Embora filmes como Treasure Planet, Tarzan e Lilo & Stitch ainda consigam ter o coração Disney, com Frozem eles conseguiram me acertar como um soco na boca do estômago.

Disney-Frozen

E lá estava eu, no meio de uma sala de cinema lotada por crianças entre 5 e 13 anos, me debulhando em lágrimas, de boca aberta, não acreditando no que eu estava vendo.

Mas vamos aos detalhes. O filme é uma adaptação livre do conto escandinavo “The Snow Queen”. Cheio de excelentes referências à cultura nórdica, conhecemos a história das irmãs Elsa e Anna do reino de Arendelle. O rei e rainha do pequeno país nórdico mantêm em segredo os poderes de sua filha mais velha, Elsa, que pode controlar o gelo e a neve. Um dia, Elsa acidentalmente atinge sua irmã Anna com um de seus poderes quase a matando, o que faz com que o Rei e a Rainha se tornem ainda mais restritos com Elsa. O tempo passa e Elsa é coroada rainha de Arendelle. Numa grande confusão, seus poderes acabam sendo expostos para a população do país, o que faz com que ela fuja e construa seu próprio palácio de gelo, se tornando a “Snow Queen” e afundando o país num severo e interminável inverno.

O filme te carrega para os clássicos Disney desde o início, com canções envolventes e bem posicionadas, duetos incríveis, dignos da época de Aladin, cenários de tirar o fôlego, personagens cativantes e uma história surpreendente. Frozen acerta em tudo. Em cada detalhe, em cada canção, em cada piada e trocadilho.

Pra mim, o momento em que Elsa foge para as montanhas e se dá conta de que ela está livre para ser quem ela é, e assim começa a construir seu palácio de gelo, foi a parte mais emocionante. A canção, que é a principal da trilha sonora, é lindamente performada pela talentosíssima Idina Menzel.

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Além de tudo isso, o filme é uma excelente mensagem de força feminina, mostrando que sim, as mulheres podem ser poderosas e resolver seus problemas sem a ajuda de um homem, que nem toda princesa precisa de um príncipe, e que o verdadeiro amor pode ser muito diferente daquilo que a gente acha que é.

Foi uma viagem e tanto. Eu saí do cinema enxugando as lágrimas e pensando “Caramba, que bom que eu pude presenciar isso.”. E mais, pensando em como eu tenho sorte de  fazer parte da geração que viu obras primas como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladin e O Rei Leão, os clássicos da chamada “Era e Ouro” da Disney, e agora ver Frozen, que me levou de volta àquela época e me fez lembrar que, mesmo sem o 2D, a Disney ainda é capaz de fazer mais do que filmes de animação, mas obras primas que têm sentimento, que transmitem uma mensagem e que tocam fundo no coração e na alma das pessoas.

Parabéns Disney. You did it again.

Como sempre, dá uma olhada no trailer:

 

365 dias depois…

No dia 25 de Setembro fez um ano que eu troquei o calor do Brasil pelo suposto frio da Inglaterra.

Digo de antemão pro galerê que quer fazer aloka e largar o Brasil de mão que a vida não é um programa do GNT.

Quando eu tomei a decisão de vir morar na Inglaterra, eu levei em consideração uma série de coisas. Ao contrário do que muita gente pensa, não foi algo decidido do dia pra noite. E também ao contrário do que muita gente pensa, não foi e não está sendo nada fácil.

E eu nem me refiro ao clima ou temperatura pois a gente acaba se adaptando a essas coisas. Passa a sentir calor quando está 20 graus e passa a olhar pro lado contrário quando vai atravessar a rua. Eu me refiro ao fato de que vida de imigrante passa muito longe do conto de fadas descrito por muitos.

Quando você sai do seu país e vai pro país dos outros, você vai ser sempre diferente. E olha que aqui na Inglaterra tem MUITO imigrante. As pessoas não são rudes ou te tratam de forma diferente. É um sentimento que simplesmente existe dentro de você. Você tá ali, participando do dia a dia como qualquer um, mas você sabe que de fato e de direito você não pertence. Acho que esse é o grande lance. O sentimento de não pertencer. Quando eu tô em casa com a Lea ou quando estamos rodeados dos nossos amigos, esse sentimento não chama tanta atenção porque eu estou rodeada de pessoas que me amam e não se importam se eu nasci na Inglaterra ou no Brasil ou em Madagascar. Ao menos pra mim, o idioma não é uma barreira mas eu fico me perguntando como fazem as pessoas que mudam de país sem ter domínio da língua falada lá.

De qualquer forma, tudo é diferente. A começar pelo processo de visto. Logicamente, como tudo no mundo, se você é rico, nada é percalço. Bom, eu não sou rica, e por conta disso, meu processo de visto que deveria ter durado alguns meses, durou esse ano inteiro. Meu primeiro visto, o de noiva, foi expedido sem problemas, quando eu ainda estava no Brasil. Ao chegar aqui, comecei a ver que problemas com burocracias, ou melhor, burrocracias, existem em qualquer canto do mundo. Tinhamos que marcar a data da nossa união civil para poder dar entrada na modificação do visto. Aqui na Inglaterra, você não pode simplesmente entrar num cartório e assinar um papel. Existe algo chamado “give notice”. Se trata de um “aviso formal” da união estável de um casal. Esse aviso sendo dado, o casal pode dar segmento e marcar a data da cerimônia após 15 dias. Mas como eu sou estrangeira, levei o primeiro tapa. Esse “give notice” só podia ser feito numa outra cidade. Tive que pegar trem e etc só pra poder marcar a data da minha união civil. E lá, a pessoa responsável fez um “tira-teima” pra “ter certeza se nosso relacionamento era genuino.” Aqui tem tanto imigrante ilegal que o governo simplesmente trata todo mundo como safado. Como se todo e qualquer imigrante quisesse apenas mamar nas tetas do governo. E diga-se de passagem, quem mais mama nas tetas do governo aqui é o próprio povo Britânico. Pouco tempo depois, descubro que precisaria ir em Londres para -wait for it- tirar foto e deixar impressões digitais. E lá vai barão. Vale lembrar que, com o visto de noiva, eu não tenho autorização para trabalhar e, portanto, Lea esta sustentando nós duas e o cachorro.

A coisa piorou quando, depois de tudo certo e resolvido, o meu visto foi negado. Mais rios de dinheiro gastos com advogados. E o pior é que o visto foi negado por causa de um erro do governo. Mais uma vez, somos mandados para longe. A audiência que determinaria se eu poderia ou não ficar foi marcada em Gales. Sim, outro país. Aliás, isso é algo que com o tempo, acostuma-se. O fato da Grã-Bretanha ser um país formado por QUATRO países.

No final deu tudo certo, o governo reconheceu o erro e meu visto foi expedido. E não, não tive um centavo de volta. A impressão que dá é que eles fazem de tudo pro imigrante simplesmente desistir de adquirir o visto. Veja bem, o processo é até bem simples, mas requer muito cuidado de atenção. É nessa que muita gente confunde zas com tras e acaba tendo o visto negado. E nesse ponto, muita gente simplesmente desiste. Eu não desisti porque a razão pela qual eu decidi vir pra cá era forte demais. E ainda é.

Eu creio que no que se refere aos tramites de imigração, o pior já passou. Agora é continuar se adaptando a essa vida de imigrante.

É tudo muito doido. Ficar bêbado e ter que se lembrar que você tem que falar em outro idioma.   Parece bobagem mas é difícil.

A coisa facilita um pouco quando você desmitifica o bom e velho “ah, eu moro na Europa” e percebe que aqui todo mundo é gente como a gente. Todo mundo acorda cedo pra ir trabalhar, vai pro boteco no final de semana, pega o cocô do próprio cachorro, paga contas, fica gripado, ri e chora igualzinho todo mundo que você conhece no Brasil. Pelo menos pra mim, a grande diferença (e o que, até o momento, me faz preferir a vida aqui) está no estilo de vida e na educação das pessoas. E principalmente na ausência do grotesco abismo social que existe no Brasil. Lógico que aqui tem rico e tem pobre como em qualquer lugar do mundo, mas a coisa e menos escandalosa. Aqui cada um bota gasolina no próprio carro. Não tem frentista. Aqui cada um limpa sua própria casa. Não tem empregada doméstica (a não ser que você seja milionário e more numa mansão). Não existe a cultura do sub-emprego. E isso é algo que se criou centenas de anos atrás. Essas diferenças vêm da nossa colonização. Mas fora isso, é a mesma coisa. Tem até “bolsa família” e “seguro desemprego”.

Mas isso nem é a pior parte de ser imigrante. Eu diria que a pior parte é a pseudo solidão na qual você vive. Pelo menos nos primeiros anos. É se dar conta que se você tiver passando mal, não vai poder ligar pra sua mãe pra pedir ajuda. Se tiver de coração partido, não vai poder encher a cara com os SEUS amigos, vai ficar muito tempo sem falar e sem ouvir o seu próprio idioma, de forma que quando precisar dele, vai se enrolar pra pensar e falar. Você perde a noção de identidade, perde um pouquinho de você mesmo.

Eu acredito que, com o passar dos anos, essa pseudo solidão se acalma. Lógico que você vai sempre sentir falta dos seus amigos e família no seu país, mas você constrói uma vida, conhece pessoas, arranja empregos, vai à lugares, passa a fazer parte da comunidade, e isso tudo acaba por fazer com que você reconstrua esse pedacinho de si mesmo perdido no processo de imigração e adaptação.

E mais do que saber que isso se acalma com o tempo é o simples fato de, como sabiamente me disse meu primo Pedro, “my loneliness is NOT killing me”. É saber que essa pseudo solidão existe mas não faz com que eu perca as estribeiras, e principalmente, saber que eu tenho a companhia de mim mesma, meus pensamentos, minhas lembranças, e que estar só muitas vezes pode ser uma coisa boa.

Por esses e outros motivos, eu chego a conclusão que se você pensa em sair do seu país, do lugar onde você nasceu e largar tudo que você conhece, tudo que te formou e te fez o que você é, tenha certeza de que o motivo é mais do que legítimo.  Eu tive sorte pois estou me adaptando perfeitamente bem à vida nesse país. Conheço um tanto de gente que jamais se adaptou e decidiu voltar pra casa. E eu entendo perfeitamente. Não é fácil mesmo não. A saudade bate, e bate forte, até das coisas que você não gosta, das coisas para as quais você não ligava tanto, e das pessoas que você achava que tinha esquecido.

Eu sei que um ano não é tanto tempo assim, mas já faz uma mega diferença. Eu jamais voltarei a ser a pessoa que eu era em 24 de setembro de 2012. Agora é seguir em frente, continuar construindo minha vida e minha família nesse país que eu escolhi pra viver. Eu amo o Brasil, com todas as suas imperfeições e jamais encontrei uma cidade mais bela do que o meu Rio de Janeiro (inclusive, nomeamos nosso cachorro em homenagem. A ideia foi da Lea que foi ao Rio e se impressionou com tamanha beleza!). Em breve eu volto pra poder beijar e abraçar minha mãe e meu pai e meu irmão, tomar porre com os meus amigos e sentar no aterro de frente pro Pão de Açúcar. Mas de férias, com data marcada pra voltar, porque mesmo com todas as incertezas e dificuldades e sentimentos confusos, aqui eu tenho minha casa, minha família e todas as razões que eu preciso para não querer jamais olhar pra trás.

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O Rio de Janeiro continua lindo. E fofo.

Pra começar, deixa eu explicar que meus posts estão lentos porque eu tenho estado extremamente ocupada resolvendo meu visto.
Estou com várias ideias para posts, resenhas e etc pra colocar aqui, portanto não se desesperem! LOL

Hoje eu vou dividir com vocês um dos grandes amores da minha vida. Meu cachorro. O nome dele é Rio de Janeiro Joy Rêgo e ele é um vira-lata mistura de Akita japonês com Greyhound. O Rio arrota e peida como se fosse humano, deita de cabeça pra baixo com as patas dianteiras e traseiras esticadas, odeia legumes, verduras e frutas. Em suma, o cachorro perfeito pra mim. Eu e Lea o adotamos quando ele tinha 8 meses. Já era um fanfarrão. Essa semana eu tirei umas fotinhos dele e decidi dividi-las com vocês porque, honestamente, meu cachorro é lindo demais.

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Pode babar que eu deixo.