E mais um ano se passou…

Dia 25 de Setembro faz dois anos que eu me mudei pra Inglaterra.

Ano passado eu fiz um post parecido quando completou um ano.

Confesso que muitas coisas continuam como eram há um ano atrás, mas algumas coisas mudaram.
Eu tinha acabado de começar no meu emprego, e hoje eu sou uma das funcionárias mais importantes da empresa, tenho mais amigos, mais histórias pra contar, chorei, e muito, a perda do meu cachorro e sorri com o meu apartamento novo, novos planos, novas possibilidades.

Nesse ano que passou eu pratiquei muito a minha fotografia e estou muito satisfeita com o rumo que minha arte está tomando.

Cada dia que passa eu vejo que a Cecilia que veio pra Bournemouth no dia 25 de Setembro de 2012 não existe mais. Nesse ano que passou, muitos dos meus “amigos” de Brasil com S sumiram. Alguns já tinham começado a sumir antes mesmo de eu vir pra cá, mas agora, depois de quase 3 anos longe do RJ e 2 anos longe do Brasil, eu literalmente conto nos dedos de uma mão as pessoas com quem eu falo constantemente e principalmente, as pessoas que tem qualquer similaridade comigo. Meu numero de amigos no FB caiu consideravelmente.

Vir pra cá mudou a minha vida de todas as maneiras que uma vida pode ser mudada. Eu me descobri enquanto ser humano, enquanto mulher, enquanto adulta, enquanto pessoa independente. Eu descobri que estar sozinho é ok quando a própria companhia é agradável. Eu aprendi que a “falta de toque” do povo britânico faz com que o toque tenha MUITO mais valor.
Aprendi com a falta de sol que o verão é bom demais, e que o outono é a estação mais linda.

Com dois anos de Inglaterra, eu aprendi que o espaço pessoal de cada um tem que ser respeitado, que eles avisam sim antes de visitar os outros, não por esquisitice, mas por respeito pelo outro, por saber que o outro pode estar ocupado ou pode simplesmente não estar a fim de receber ninguém.

Com dois anos de Inglaterra, meu português tá uma bosta. Eu penso pra falar, eu esqueço palavras, eu falo devagar. E não é bestice não, é pura falta de habito.

Com dois anos de Inglaterra eu achava que eu teria viajado por meia Europa, mas o mais longe que fui, foi o sul de Gales.
Eu aprendi que sim, a gente ganha salário em Libra Esterlina mas gasta o salário em Libra Esterlina também.

Depois de dois anos vivendo numa cidade pequena, dá saudade do ar cosmopolita de uma metrópole, mas depois de 2 horas em Londres eu já não aguento mais e quero voltar pra minha cidadezinha.

Depois de dois anos, eu aprendi que o lugar que a gente nasce e às vezes passa a maior parte da nossa vida, não necessariamente é o lugar certo pra gente.

 

Depois de dois anos, eu tenho certeza que eu achei o lugar certo pra mim.

365 dias depois…

No dia 25 de Setembro fez um ano que eu troquei o calor do Brasil pelo suposto frio da Inglaterra.

Digo de antemão pro galerê que quer fazer aloka e largar o Brasil de mão que a vida não é um programa do GNT.

Quando eu tomei a decisão de vir morar na Inglaterra, eu levei em consideração uma série de coisas. Ao contrário do que muita gente pensa, não foi algo decidido do dia pra noite. E também ao contrário do que muita gente pensa, não foi e não está sendo nada fácil.

E eu nem me refiro ao clima ou temperatura pois a gente acaba se adaptando a essas coisas. Passa a sentir calor quando está 20 graus e passa a olhar pro lado contrário quando vai atravessar a rua. Eu me refiro ao fato de que vida de imigrante passa muito longe do conto de fadas descrito por muitos.

Quando você sai do seu país e vai pro país dos outros, você vai ser sempre diferente. E olha que aqui na Inglaterra tem MUITO imigrante. As pessoas não são rudes ou te tratam de forma diferente. É um sentimento que simplesmente existe dentro de você. Você tá ali, participando do dia a dia como qualquer um, mas você sabe que de fato e de direito você não pertence. Acho que esse é o grande lance. O sentimento de não pertencer. Quando eu tô em casa com a Lea ou quando estamos rodeados dos nossos amigos, esse sentimento não chama tanta atenção porque eu estou rodeada de pessoas que me amam e não se importam se eu nasci na Inglaterra ou no Brasil ou em Madagascar. Ao menos pra mim, o idioma não é uma barreira mas eu fico me perguntando como fazem as pessoas que mudam de país sem ter domínio da língua falada lá.

De qualquer forma, tudo é diferente. A começar pelo processo de visto. Logicamente, como tudo no mundo, se você é rico, nada é percalço. Bom, eu não sou rica, e por conta disso, meu processo de visto que deveria ter durado alguns meses, durou esse ano inteiro. Meu primeiro visto, o de noiva, foi expedido sem problemas, quando eu ainda estava no Brasil. Ao chegar aqui, comecei a ver que problemas com burocracias, ou melhor, burrocracias, existem em qualquer canto do mundo. Tinhamos que marcar a data da nossa união civil para poder dar entrada na modificação do visto. Aqui na Inglaterra, você não pode simplesmente entrar num cartório e assinar um papel. Existe algo chamado “give notice”. Se trata de um “aviso formal” da união estável de um casal. Esse aviso sendo dado, o casal pode dar segmento e marcar a data da cerimônia após 15 dias. Mas como eu sou estrangeira, levei o primeiro tapa. Esse “give notice” só podia ser feito numa outra cidade. Tive que pegar trem e etc só pra poder marcar a data da minha união civil. E lá, a pessoa responsável fez um “tira-teima” pra “ter certeza se nosso relacionamento era genuino.” Aqui tem tanto imigrante ilegal que o governo simplesmente trata todo mundo como safado. Como se todo e qualquer imigrante quisesse apenas mamar nas tetas do governo. E diga-se de passagem, quem mais mama nas tetas do governo aqui é o próprio povo Britânico. Pouco tempo depois, descubro que precisaria ir em Londres para -wait for it- tirar foto e deixar impressões digitais. E lá vai barão. Vale lembrar que, com o visto de noiva, eu não tenho autorização para trabalhar e, portanto, Lea esta sustentando nós duas e o cachorro.

A coisa piorou quando, depois de tudo certo e resolvido, o meu visto foi negado. Mais rios de dinheiro gastos com advogados. E o pior é que o visto foi negado por causa de um erro do governo. Mais uma vez, somos mandados para longe. A audiência que determinaria se eu poderia ou não ficar foi marcada em Gales. Sim, outro país. Aliás, isso é algo que com o tempo, acostuma-se. O fato da Grã-Bretanha ser um país formado por QUATRO países.

No final deu tudo certo, o governo reconheceu o erro e meu visto foi expedido. E não, não tive um centavo de volta. A impressão que dá é que eles fazem de tudo pro imigrante simplesmente desistir de adquirir o visto. Veja bem, o processo é até bem simples, mas requer muito cuidado de atenção. É nessa que muita gente confunde zas com tras e acaba tendo o visto negado. E nesse ponto, muita gente simplesmente desiste. Eu não desisti porque a razão pela qual eu decidi vir pra cá era forte demais. E ainda é.

Eu creio que no que se refere aos tramites de imigração, o pior já passou. Agora é continuar se adaptando a essa vida de imigrante.

É tudo muito doido. Ficar bêbado e ter que se lembrar que você tem que falar em outro idioma.   Parece bobagem mas é difícil.

A coisa facilita um pouco quando você desmitifica o bom e velho “ah, eu moro na Europa” e percebe que aqui todo mundo é gente como a gente. Todo mundo acorda cedo pra ir trabalhar, vai pro boteco no final de semana, pega o cocô do próprio cachorro, paga contas, fica gripado, ri e chora igualzinho todo mundo que você conhece no Brasil. Pelo menos pra mim, a grande diferença (e o que, até o momento, me faz preferir a vida aqui) está no estilo de vida e na educação das pessoas. E principalmente na ausência do grotesco abismo social que existe no Brasil. Lógico que aqui tem rico e tem pobre como em qualquer lugar do mundo, mas a coisa e menos escandalosa. Aqui cada um bota gasolina no próprio carro. Não tem frentista. Aqui cada um limpa sua própria casa. Não tem empregada doméstica (a não ser que você seja milionário e more numa mansão). Não existe a cultura do sub-emprego. E isso é algo que se criou centenas de anos atrás. Essas diferenças vêm da nossa colonização. Mas fora isso, é a mesma coisa. Tem até “bolsa família” e “seguro desemprego”.

Mas isso nem é a pior parte de ser imigrante. Eu diria que a pior parte é a pseudo solidão na qual você vive. Pelo menos nos primeiros anos. É se dar conta que se você tiver passando mal, não vai poder ligar pra sua mãe pra pedir ajuda. Se tiver de coração partido, não vai poder encher a cara com os SEUS amigos, vai ficar muito tempo sem falar e sem ouvir o seu próprio idioma, de forma que quando precisar dele, vai se enrolar pra pensar e falar. Você perde a noção de identidade, perde um pouquinho de você mesmo.

Eu acredito que, com o passar dos anos, essa pseudo solidão se acalma. Lógico que você vai sempre sentir falta dos seus amigos e família no seu país, mas você constrói uma vida, conhece pessoas, arranja empregos, vai à lugares, passa a fazer parte da comunidade, e isso tudo acaba por fazer com que você reconstrua esse pedacinho de si mesmo perdido no processo de imigração e adaptação.

E mais do que saber que isso se acalma com o tempo é o simples fato de, como sabiamente me disse meu primo Pedro, “my loneliness is NOT killing me”. É saber que essa pseudo solidão existe mas não faz com que eu perca as estribeiras, e principalmente, saber que eu tenho a companhia de mim mesma, meus pensamentos, minhas lembranças, e que estar só muitas vezes pode ser uma coisa boa.

Por esses e outros motivos, eu chego a conclusão que se você pensa em sair do seu país, do lugar onde você nasceu e largar tudo que você conhece, tudo que te formou e te fez o que você é, tenha certeza de que o motivo é mais do que legítimo.  Eu tive sorte pois estou me adaptando perfeitamente bem à vida nesse país. Conheço um tanto de gente que jamais se adaptou e decidiu voltar pra casa. E eu entendo perfeitamente. Não é fácil mesmo não. A saudade bate, e bate forte, até das coisas que você não gosta, das coisas para as quais você não ligava tanto, e das pessoas que você achava que tinha esquecido.

Eu sei que um ano não é tanto tempo assim, mas já faz uma mega diferença. Eu jamais voltarei a ser a pessoa que eu era em 24 de setembro de 2012. Agora é seguir em frente, continuar construindo minha vida e minha família nesse país que eu escolhi pra viver. Eu amo o Brasil, com todas as suas imperfeições e jamais encontrei uma cidade mais bela do que o meu Rio de Janeiro (inclusive, nomeamos nosso cachorro em homenagem. A ideia foi da Lea que foi ao Rio e se impressionou com tamanha beleza!). Em breve eu volto pra poder beijar e abraçar minha mãe e meu pai e meu irmão, tomar porre com os meus amigos e sentar no aterro de frente pro Pão de Açúcar. Mas de férias, com data marcada pra voltar, porque mesmo com todas as incertezas e dificuldades e sentimentos confusos, aqui eu tenho minha casa, minha família e todas as razões que eu preciso para não querer jamais olhar pra trás.

riolssd