Eu não sento que nem homem. Eu sento que nem gente.

Gente, que ano é hoje? Cada dia que passa, eu acordo de manhã pensando que voltamos no tempo, que estamos de volta aos anos, sei lá, anos 20 ou mesmo de volta aos tempos medievais. Eu vejo na TV e nos jornais e na internet notícias que corroboram com a minha impressão. Veja bem, eu me considero uma pessoa de sorte porque fui criada num seio familiar extremamente esclarecido e, digamos, moderno. Moderno porque desde muito nova eu só tive bons exemplos de convivência humana. O que eu quero dizer com isso? Simples. Na minha casa, as empregadas domésticas (todas negras ou pardas) raramente chamavam meus pais de “Dona Roseanna” ou “Seu Créso”. Era sempre pelo 1o nome. Além disso, elas eram sempre convidadas para sentar à mesa conosco durante as refeições. Esse é apenas um exemplo. Desde pequena eu soube que meu tio era gay. E isso nunca foi um big deal. Eu acredito que, com isso, meu comportamento foi moldado com tolerância e igualdade.

Eu entendo que, num país como o Brasil, onde a grande maioria da população de baixa renda é negra, as pessoas colocaram no corpo uma armadura de preconceito generalizando que, todo negro é bandido. Eu jamais coloquei essa armadura. Talvez por isso eu tenha sido assaltada tantas vezes mais do que meus amigos. Porque eu não automaticamente assumia que aquele cara negro e mal vestido andando perto de mim tinha a intenção de me assaltar. Mas aí é que a coisa muda de figura pois, se me lembro bem, MUITAS das vezes que fui assaltada, os meliantes eram branquinhos. Uma vez foi uma cara louro de olho claro, que roubou meu mp3 player. E agora? Seria isso a desconstrução do preconceito?

Mas veja bem, meu ponto principal nem é esse. É claro que o preconceito em geral é nojento, seja por cor da pele (que eu me recuso a chamar de raça por que, gente, por favor, nossa raça é a humana e quem pensa diferente pode ir brincar no parquinho com Adolf), credo, opção sexual (outra expressão que me incomoda bastante porque, né, não é bem opcional, mas oh well), identidade de gênero (hello, 2014 gente, gênero binário está no passado) e gênero biológico.

Porém, eu acredito que role uma catarse na vida de algumas pessoas em determinado momento que faz com que seus olhos se abram. Infelizmente essa catarse ainda é um privilégio de poucos. Especialmente no que diz respeito ao machismo, sexismo e misoginia. E é alarmante como essa cultura do machismo está araigada no nosso dia a dia. Mesmo nas coisas mais simples, mais sem importancia. Por exemplo, dia desses numa loja aqui perto de casa eu vi um protetor de ouvidos em promoção. Era azul e dizia na embalagem: “Protetor de ouvidos masculino.”. Ao lado desse produto, tinha um IGUALZINHO. A mesmíssima coisa, mas era rosa. E na embalagem, dizia: “Protetor de ouvidos feminino.” Eu vi aquilo e pensei: “Mas gente, é a mesma coisa!”.

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Outro exemplo: O irmão da Lea recentemente descobriu que vai ser papai. Estavamos conversando sobre a feliz notícia e perguntamos se eles vão querer saber o gênero biológico do bebê antes do nascimento e a mãe da criança, prontamente, disse: “Mas é claro! Precisamos saber pra poder escolher a cor do quarto.”. Oi?

Eu sei que, na sociedade que vivemos hoje em dia, isso tudo é muito normal mas, gente, não é normal não! Um menino pode vestir rosa SIM e ele não vai ser menos menino por isso. Bem como uma menina pode vestir azul e ser mega feminina. Os brinquedos com os quais eles brincam não vão moldar a personalidade deles. Eu já vi pais dizendo que quarto de menino tem que ser azul porque rosa é cor de menina. E na mesma conversa, eles dizem que video-games não influenciam uma criança no que diz respeito a violência como muita gente pensa. Ora, você não está sendo coerente, amiguinho! Se um video-game ultra violento não vai fazer com que o seu filho(a) seja uma pessoa violenta, por que diabos a cor preferida dele(a) vai fazer com que ele(a) seja mais ou menos feminino(a) ou masculino(a)? A lógica é a mesma, gente!

Outro dia eu vi no Facebook um post sobre “arroz de churrasqueira”, que até se tornou meio viral porque era uma ideia muito imbecil de cozinhar arroz dentro de uma garrafa pet. Mas o que chamou minha atenção foram os comentários de muitos amigos meus dizendo como “isso só podia ser ideia de mulher mesmo”.

Eu mesma sofri muito na minha infância e adolescência com brados vindos dos meus amiguinhos e até mesmo de pessoas menos esclarecidas da família dizendo: “Você precisa colocar um vestidinho!” ou “Você cruza as pernas que nem homem!” e coisas desse tipo.

A sociedade brasileira ainda é extremamente sexista, machista e misógina. A masculinidade construída socialmente sente-se ameaçada diariamente pelas pequenas vitórias das mulheres. Pequenas porque sabe-se bem que ainda há muita estrada pela frente.

Por isso que eu sempre digo que a sociedade precisa de mais feministas. Porque em pleno 2014 menos da metade dos casos de violência doméstica são denunciados para a polícia. Porque as mulheres ainda ganham consideravelmente menos que os homens mesmo estando exercendo a mesma função. Porque mulheres que se relacionam com muitas pessoas ainda são chamadas de “piranhas” ou “safadas” ou “fáceis” mas homens que saem com muitas pessoas são pegadores, garnahões. Porque músicas como “Blurred Lines” ainda ficam no topo  das paradas musicais. Porque mulheres que não querem casar ou ter filhos ainda são consideradas fracassadas ou “ficaram pra titia”. Porque a ideia de que as mulheres precisam ficar em casa pra cuidar da casa e dos filhos ainda é predominante. Porque homens que cuidam do próprio corpo ou da própria casa ainda são chamados de viadinhos. Porque homens que decidem ser bailarinos ou cabeleireiros ou estilistas ainda são motivo de chacota.

A sociedade precisa de mais feminismo porque a maioria das pessoas ainda não entendeu que lugar de mulher não é no tanque, mas onde ela quiser estar. E lugar de homem não é na estiva, é onde ele quiser estar.

Eu espero que um dia o mundo perceba que a água potável está acabando, a poluição está destruindo a natureza e a atmosfera, e pare de se preocupar com a cor que uma pessoa escolhe como sua preferida ou o brinquedo que uma criança escolhe para brincar. Um mundo com menos “coisa de mulher” ou “coisa de homem” e mais “coisa de gente”.

Mas é aquilo, em terra de machistas, mulher que tem opinião é fancha.

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7 thoughts on “Eu não sento que nem homem. Eu sento que nem gente.

  1. Muito bom Cissa ! Texto lúcido e sem exageros ! Mas acredite-me, isso já foi muito pior ! Os últimos 40 anos representaram um salto enorme ! Sei que é necessário muita paciência com energúmenos que tem espaço na mídia para dizer suas sandices mas o rumo já está traçado e a trilha já começou a ser percorrida ! Chegaremos lá ! E, a propósito, obrigado pelo reconhecimento no primeiro parágrafo ! Eu e sua mãe nos esforçamos por um environment livre de preconceitos idiotas e parece que conseguimos !

  2. Concordo plenamente com todo o texto. A sociedade parece refutar o que é mais complexo. Ou vc gosta de A ou de B. Ou você é um menino que gosta de azul ou uma menina que gosta de rosa. Muita gente precisa entender que não é algo direto, simples e sem nuances. E espero que essa estrada do feminismo continue firme e forte. E haja um pouco mais de igualdade entre as pessoas independente de todos esses fatores como cor de pele, orientação sexual, identidade de gênero.

  3. Concordo plenamente com você, Cissa. Quando meu filho, que hoje tem 15 anos, era criança e gostava de brincar de boneca com a prima todos ficavam me “alertando” para o fato de que isso demonstrava que ele se “tornaria” gay. Eu nunca o proibi, sempre deixei que ele fosse uma criança da forma que ele fosse mais feliz. Uma vez, minha própria mãe me afirmou que eu não gostaria se ele fosse gay. Minha resposta pronta a assustou bastante. Eu disse que pouco me importava isso, que independia da criação e “vontade” dele. E que eu sempre estaria a seu lado e feliz, desde que ELE fosse feliz.
    Aparentemente, ele é hetero mas o que realmente me importa é saber que ele é um rapaz feliz e de bom coração. Livre de qualquer preconceito e que me ensina muito sobre assuntos que jamais eu teria a liberdade de conversar com minha mãe e meu pai.
    O que realmente quero dizer é que acredito que, apesar de muito atrasados, estamos evoluindo para uma nova geração mais livre e, principalmente feliz.

  4. Concordo plenamente com vc, Cissa! Me assusto quando vejo que, em pleno 2014, as pessoas continuam com os mesmos preconceitos ridículos! Qdo eu tiver um filho ou filha, espero ensinar pra eles os mesmos valores em que acredito.
    E se alguém começar com frases do tipo “vc não pode correr desse jeito pq é mocinha!”, “larga essa boneca pq vc é não é menina!”, “homem não chora!” e etc, já vou dar logo um fora e mandar a calar a boca!
    Se os pais se preocupassem com a felicidade de seus filhos, ao invés de se preocuparem com as cores que vestem e os brinquedos que brincam, o mundo seria um lugar melhor!
    Arrasou no texto!!

  5. Adorei o final: “Mas é aquilo, em terra de machistas, mulher que tem opinião é fancha”. hahaha Você expressou muito bem a ideia, Cissa. Fiquei de cara com a questão dos protetores de ouvido. Muito ridículo.

  6. É isso. Também sofri muito e sofro até hoje. Já ouvi NA FACULDADE PROFESSORES falando que “isso não é jeito de menina sentar!” e eu não me movia um centímetro. O meu conforto influi muito mais na minha aprendizagem do que a opinião dele.
    Concordo plenamente com seu texto com uma ressalva: os brinquedos que os seus filhos vão brincar vão sim influenciar em sua personalidade, como influenciam na menina que só brinca de casinha e não pode brincar de bola e cresce acreditando que a limpeza da casa é responsabilidade só dela, mas isso não significa que se ela quiser brincar de bola “vai querer ser homem, gay ou não vai querer cuidar da casa.” Os brinquedos e brincadeiras influenciam diretamente na personalidade da pessoa, mas não é algo tão simples, objetivo e reto. Meu irmão (8 anos) brinca de boneca desde pequeno e ninguém proíbe. Em certo momento fomos perceber que ele brincava que a boneca era a namorada dele e nada mudou, ninguém passou a influenciar ou tratar de outra forma. Porque ele faz do brinquedo o que ele é. E ninguém na minha família quer que ele seja algo que ele não é.
    Meu filho (a) vai sair da maternidade de arco-iris ou e ter o quarto roxo ou uma cor que confunda mesmo a todos. Pois acredito que isso possa colocar as pessoas pra pensar.

    • Muito bem apontado, amiga. Eu me expressei mal mesmo. A sua ressalva expressa bem o que eu quis dizer. Valeu!

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